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As elaborações retóricas da tradição hiberno-latina: uma leitura da Confessio de São Patrício

The Hiberno-Latin tradition of rhetorical formulation: reading Saint Patrick’s Confessio

Dominique Vieira Coelho dos Santos

Universidade de Blumenau

(Brasil)
vieiradominique@hotmail.com

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Resumo

Até a última década do século passado, um traço comum da historiografia tem sido caracterizar São Patrício como um escritor pobre, sem nenhuma ferramenta literária e sua escrita como desprovida de retórica. Só recentemente, uma nova interpretação sobre esta questão veio à tona, sobretudo graças as contribuições de David Howlett e Máire de Paor. Para mostrar que Patrício construiu em sua Confessio um complexo sistema retórico, ambos autores se concentraram em fazer uma análise da estrutura literária e gramatical do texto. Esta contribuição foi fundamental para Patriciologia contemporânea. No entanto, uma análise detalhada do discurso de Patrício é um caminho que também pode nos levar à conclusão de que Patrício, de fato, foi muito bem educado e utilizou habilidades retóricas em sua argumentação. Este é o objetivo deste artigo.

Palavras-chave: Cristianismo – São Patrício – Irlanda – Retórica – Confessio.

Abstract

Until the last decade of the last century, a common feature in historiography has been to characterize St Patrick as a poor writer, with no literary devices and his writing as completely devoid of rhetoric. Only recently, a new interpretation on this issue became available, particularly through the contributions of David Howlett and Máire de Paor. In order to demonstrate that Patrick built in his Confessio a complex rhetoric system, both authors provided an analysis of the literary and grammatical structure of the text. This contribution was fundamental to the current developments of Patriciology. However, a detailed analysis of Patrick’s discourse is also a path that can lead us to the conclusion that Patrick in fact was very well educated and explored rhetorical tools in his argumentation. This is the aim of this article.

Keywords: Christianity – Saint Patrick – Ireland – Rhetoric – Confessio.

Resumen

Hasta la última década del siglo pasado, una característica común de la historiografía ha sido caracterizar a San Patricio como un escritor pobre, sin herramientas literarias y a su escritura como completamente carente de retórica. Sólo recientemente una nueva mirada sobre este tema salió a la luz, especialmente a través de las contribuciones de David Howlett y Máire de Paor. Para demostrar que en su Confessio Patrick construyó un complejo sistema retórico, ambos autores se centraron en hacer un análisis de la estructura literaria y gramatical del texto. Esta contribución fue fundamental para La Patriciología contemporánea. Sin embargo, un análisis detallado del discurso de Patricio es también un camino que puede llevarnos a la conclusión de que Patricio en verdad fue muy bien educado y utiliza habilidades retóricas en su argumentación. Este es el propósito de este artículo.

Palabras clave: Cristianismo – San Patrício – Irlanda – Retórica – Confessio.


    A Patriciologia, que estuda a vida e a obra do bretão romanizado que se apresentava na Irlanda como Patricius, hoje conhecido como São Patrício, um dos personagens irlandeses mais mencionados na historiografia, se estruturou apenas recentemente, e foi um processo que perdurou todo o último século. Podemos dizer que os estudos modernos de Patriciologia começaram em 1905, com a publicação da obra de J.B.Bury The Life of Saint Patrick and his place in History. Posteriormente, houve uma mudança significativa em 1962, quando Daniel Binchy escreveu Patrick and his Biographers: Ancient and Modern, tecendo severas críticas aos principais patriciologistas de sua época, principalmente aqueles envolvidos nas comemorações que haviam ocorrido em Dublin no ano anterior, que ficou conhecido como The Patrician Year, por celebrar 1500 anos da morte de Patrício, assumindo sem qualquer apoio nas evidências que isso teria ocorrido no ano de 461. Por fim, uma nova virada de mesa ocorreu nos últimos anos do século XX e início deste século, com as obras de Máire de Paor (1998), Thomas O’Louglin (2003, 2005 e 2006) e David Howlett (1994 e 2006), quando novas contribuições foram apresentadas, principalmente no que diz respeito a obra de Muirchú Mocchu Machteni, autor de uma vida de São Patrício escrita na Irlanda no século VII. Devido a estas reformulações, houve a necessidade de se repensar várias questões inerentes à patriciologia. Uma delas merece consideração mais atenta de nossa parte, pois, além de ser central para os estudos patriciológicos, está diretamente relacionada com a problemática da retórica no contexto da tradição hiberno-latina.
    Não foram poucos os historiadores que representaram Patrício como tendo uma retórica deficitária e um lapso no conhecimento da língua latina. Para Ludwig Bieler, por exemplo, o texto de Patrício tinha “um vazio de estrutura peculiar ao seu estilo”, apresentava “uma constante dificuldade com a linguagem e um jeito bastante complicado de escrever” e também uma “retórica inocente”, definitivamente, ele não era um “littérateur” (Bieler, 1949: 49 e 73; Bieler, 1993: 28 e 44). James Carney afirmou que Patrício era “um escritor inexperiente” (1961: 94). Binchy se referia a ele como “o simples Patrício da Confessio”, o escritor de “um latim bárbaro” (1962: 55 e 143). R.P.C. Hanson, por sua vez, acreditava que os escritos de Patrício eram “desprovidos de retórica” (1983: 36). [1]
    Todavia, apesar desta leitura dos escritos de Patrício ter sido bastante divulgada, interpretação que perdurou na historiografia durante grande parte do século XX, ela não mais se sustenta. Isto se deve sobretudo às contribuições de Howlett e Máire de Paor. Hoje sabemos que Patrício estava inserido em uma tradição, que será classificada pela historiografia como Hiberno-latina, responsável pela elaboração de uma complexa rede de argumentação retórica, cada palavra escrita por ele estava devidamente arranjada em um sistema muito bem construído, o que, em diversas ocasiões, não foi apreciado de forma satisfatória, como a leitura das obras dos historiadores indicados no parágrafo anterior, por exemplo, claramente sugere. Sua Confessio foi interpretada de forma literal, ignorando-se a complexidade do texto e os diversos sentidos presentes no mesmo, arranjados a partir de uma rica estrutura. Neste artigo, analisamos algums trechos da Carta de Patrício mostrando indícios destas suas habilidades retóricas.


A Confessio de Patrício: Contexto, classificação dos manuscritos e estrutura

Confessio é um gênero literário importante no mundo antigo e um dos principais expoentes deste gênero são as Confessiones de Santo Agostinho, escritas por volta do ano 400. Há autores [2] que identificam uma influência da obra agostiniana nos escritos de Patrício (De Paor, 1998), contrariando, por exemplo, a tese protestante de James Henthorn Todd (1864), para quem Patrício era um homo unius libri e este livro era a Bíblia latina. Ludwig Bieler também mencionou algumas sugestões neste sentido em seu artigo Vigiliae Christianae (1952: 65-98) e ainda acrescentou que Patrício era familiar com a legislação eclesiástica de sua época, conhecia também a liturgia e é possível que tenha lido não somente Agostinho, mas ainda Cipriano, Atanásio, Sulpício Severo, São Martin de Tours, o irlandês Secundinus, conhecido em alguns textos como Sechnall, João Cassiano e também Inocêncio I (Bieler, 1952: 76).
    Hoje a idéia de um Patrício leitor de um único livro não é mais aceita pela historiografia específica da área. Todavia, sobre a influência de Agostinho em Patrício não há consenso. John O’Meara, por exemplo, rebatendo as idéias de Bieler, explica que Patrício pode até ter lido as Confessiones de Agostinho, uma vez que a vida do africano devia ser conhecida nos segmentos monásticos onde Patrício esteve, principalmente por causa da campanha agostiniana contra Pelágio. O autor inclusive levanta alguns pontos em comum entre as duas confissões. Todavia, segundo ele, mesmo se Patrício leu Agostinho, não há indícios suficientes que nos permitam afirmar que fez uso desta obra. Nem mesmo o título Confessio, pois trata-se de uma palavra que aparece diversas vezes nas escrituras, 9 vezes nos Salmos e 7 no Novo Testamento (O’Meara, 1956: 190-7).
    Patrício escreveu sua Confessio para pessoas que ele considerava importante, daí a necessidade de se justificar diante das mesmas. Ele estava sendo criticado por elas, tendo sido acusado de ir para Irlanda com o objetivo de enriquecer. A obra é uma resposta para questões do presente do autor, para tentar resolver problemas que estavam lhe importunando neste período próximo ao fim da vida, ele não pensava em futuros leitores, até mesmo porque Patrício estava “nos confins da terra” (Confessio, 1) e esperando o mundo acabar, pois ele acreditava estar vivendo “o fim dos tempos” (Confessio, 34). É por isso que E.A. Thompson explica que a Confessio “não foi escrita com o objetivo, como a História de Tucídides, de ser uma aquisição para sempre, mas para responder críticas do momento” (1986: 106).
    Thomas-Charles Edwards acredita que a Confessio foi endereçada para autoridades eclesiásticas na Bretanha, mas não deixou de contemplar também os seguidores de Patrício na Irlanda. Desta maneira, toda a primeira parte do documento é concebida como uma defesa da vida e do espicopado de Patrício contra as acusações feitas, então, por estas autoridades eclesiásticas da Bretanha. Em um segundo momento, um pouco antes do fim do texto, quando Patrício conta sobre alguns de seus desafios e também de experiências relacionadas ao período de seu episcopado, ele se volta para os seus companheiros de missão e também para os seus convertidos. Eles são o uos do texto da Confessio, tal qual podemos observar nos trechos 48, 51 e 53 (T.M. Charles Edwards: 2000: 218). Assim, enquanto Thompson acredita que a Confessio foi escrita para pessoas da Bretanha, Thomas-Charles Edwards sustenta que ela também contemplava, ao mesmo tempo, irlandeses (2000: 219). Preferimos esta segunda interpretação. De qualquer forma, e assim sugere a leitura do documento, ambos concordam que se trata de uma resposta de Patrício para seus contemporâneos. Afinal, o objetivo de Patrício era refutar certas alegações feitas por seus inimigos contra ele e sua jornada missionária na Irlanda, ou seja, trata-se de uma apologia pro vita sua (De Paor, 1998: 9).
    Há vários estudiosos na Irlanda, País de Gales e Inglaterra que se debruçaram sobre a documentação relacionada com estudos patriciológicos no sentido de compará-la, estabelecer a crítica interna destas fontes, classificar os manuscritos, verificar a correspondência das citações bíblicas, e compreender o contexto histórico ao qual estes textos estão vinculados (Santos, 2012a). Todavia, um dos estudos mais detalhados é o de Ludwig Bieler (1993). [3]
    Segundo ele, as cartas de Patrício foram preservadas em oito manuscritos: 1) Dublin, T.C.D [4] . 52 (Livro de Armagh), escrito por Ferdomnach, escriba de Armagh, em 807, de onde temos o texto da Confessio, com lacunas. Este é o manuscrito mais antigo da Confessio que se tem notícia; 2) Oxford Rawlinson B 480 (Clarendon 91), uma miscelânea de notas e coleções do século XVII, que contém, nas folhas 79r/81v, sob o título Ex antiquissº manuscripto Hib. Incipiunt libri S. Patricii, um texto da Confessio; 3) Paris, Biblioteca Nacional. Lat. 17626 (Compiègne 40bis), uma coleção de vidas de Santos comemoradas em Fevereiro ou Março escrita por algum Beneditino, transferido para Bibliothèque Nationale em 1802, que contém tanto a Confessio quanto a Epistola (folhas 72r/85v); 4) Arras, Biblioteca Municipal, 450 (S. Vedasti 1628. F.2- S. Vedasti 3,16). Uma coleção de 44 vidas de santos, ordenadas de acordo com o calendário eclesiástico, escrita no norte da França. Trata-se do manuscrito relacionado com São Fursey, que mencionamos no segundo capítulo. A Confessio e a Epistola estão presentes neste documento nas folhas 50v/53r; [5] 5) Rouen, Biblioteca Municipal, 1391. (U. 39.-U.53.-Jumiéges G.9.), uma coleção de 27 textos hagiográficos impossível de reconhecimento segundo a ordem pelo fato do manuscrito estar com o fim mutilado. O texto da Confessio, que é o último item (folhas 157v/159v), é interrompido em 244.1 insinuaui amiciisimo meo. [6] Patrício é o único santo irlandês representado nesta coleção; 6) Oxford, Bodl. Fell 3. 31 vidas de Santos, São Patrício está entre elas e o documento contém a Confessio e a Epistola (folhas 7r/13r); 7) London, Museu Britânico. A Confessio e a Epistola estão nas folhas 169v/174v; 8) Oxford, Bodl. Fell 4. 63 vidas de Santos. A Confessio e a Epistola estão nas folhas 158r/166r (Bieler, 1993: 7-10; 18).
    Após trabalhar intensamente com esta documentação, analisá-la, ordená-la, classificá-la, Bieler chegou à conclusão de que, porque o sistema de pontuação moderno difere bastante do aplicado aos textos antigos e medievais, pelo fato de nós fazermos distinção por unidades de sentido e os autores antigos e medievais por unidades de recitação, a forma ideal de apresentação da Confessio de São Patrício é a divisão per cola et commata, usando o sistema medieval de pontuação. Máire De Paor também pensa da mesma maneira sobre a forma de divisão do texto da Confessio (1998). Até mesmo Howlett, que interpreta a retórica de Patrício de forma completamente oposta a de Bieler, não só se refere a ele como o maior editor moderno das cartas de Patrício como o “segue, com poucas mudanças”, [7] quando apresenta sua própria edição do texto da Confessio adotando o mesmo sistema de divisão per cola et commata (Howlett, 1994). Quando nos referimos à Confessio de Patrício neste artigo, somos cientes de todas estas discussões e particularidades. No entanto, nossa escolha foi por utilizar uma recente tradução para o português brasileiro publicada com apoio da Royal Irish Academy (Santos, 2012b), não deixando, porém, de acompanhar o trabalho de R.P.C Hanson (1978), a edição do texto latino feita por Kieran Devine (1989), uma concordância dos termos da Confessio de Patrício gerada por computador, a obra do próprio Bieler (1993) e também a de Howlett (1994).
    A forma de argumentação de Patrício em sua Confessio foi pensada da seguinte maneira: ele começa se apresentando como “pecador, o mais rústico e o menor entre todos os fiéis”. [8] Esta forma discursiva é a predominante em todo o texto da Confessio e fundamental na construção da imagem que ele faz de si mesmo e que é essencial para sustentar sua argumentação retórica de que foi para a Irlanda apenas para cumprir a vontade de Deus, não para ganhar dinheiro ou para ter proveitos pessoais, como sustentavam os que o estavam acusando, para quem o texto é direcionado.
  &nbs Após se apresentar e dar os detalhes de sua genealogia, Patrício fala acerca de seu rapto e como se converteu no tempo em que era um escravo pastor de ovelhas na Irlanda, fala de suas crenças e nos apresenta o seu credo. A seguir, explica as razões dele querer regressar à Irlanda, lugar de seu cativeiro, para evangelizar os irlandeses, fala dos defeitos e problemas de sua educação e, por fim, ele conclui descrevendo inúmeras situações ocorridas durante sua vida e jornada missionára, faz algumas reflexões sobre sua experiência e as coisas que realizou na Irlanda. A Confessio pode ser considerada um comentário geral do mundo no tempo do escritor (Thompson, 1986).


O rusticissimus Patricius e os domini cati rethorici: a retórica de Patrício

O caminho que Howlett escolheu para demonstrar que Patrício não era um “escritor inocente” e que a Confessio não apresentava “um vazio de estrutura” ou “uma retórica deficitária” foi analisar cada componente textual do documento de forma a apresentar suas elaborações. Trata-se da observação das técnicas de criação textual utilizadas por Patrício. Vejamos, como exemplo, duas pequenas partes analisadas por Howlett. No trecho 17 da Confessio, Patrício escreve: et (1) intermisi (2) hominem (3) cum (4) quo (5) fueram (6) sex annis. Ou seja, 6 palavras antes do vocábulo sex, a última letra, x, é a sexta antes do fim da linha. [9] O mesmo tipo de fenômeno acontece no trecho 19, quando Patrício está falando de seus 28 dias de jornada pelo lugar deserto: et (1) post (2) triduum (3) terram cepimus [10] et uiginti octo dies per desertum iter fecimus. A terceira palavra a partir do início e também regressando desde o fim da linha é triduum e há 28 letras antes de uiginti octo dies (Howlett, 1994).
    Não é nossa intenção analisar aqui os pormenores da obra de Howllet, queremos apenas que o leitor conheça qual foi o tipo de sistematização que o autor utilizou para rebater as teses anteriores sobre Patrício ter uma escrita pobre e uma retórica deficitária. Ou seja, fizeram uma leitura literal do rusticissimus, ignorando que, no contexto da obra de Patrício, o termo pode ser interpretado também como um ataque contra seus opositores. Uma vez interessado nas especificidades desta argumentação, qualquer pesquisador pode recorrer à própria obra de Howlett (1994). [11] Da mesma forma, para mais informações sobre a riqueza do latim de Patrício, a referência é a obra de Christine Mohrmann (1961), na qual o leitor encontrará uma análise detalhada da estrutura geral da linguagem de Patrício, de sua sintaxe e vocabulário, dos empréstimos que fez de outros autores, e, ainda, evidências de que, por um lado, ele sofreu uma forte influência do latim falado na Gália, por outro, não há indícios para inferirmos relações com o monasticismo continental. Nosso maior interesse neste artigo é outro. Por meio da análise das passagens deste documento, é possível compreender que Patrício constrói uma imagem de sua própria pessoa e como ele deseja ser visto por aqueles que o acusam de ter ido à Irlanda para se beneficiar financeiramente. Patrício opta discursivamente em suas cartas por construir uma imagem de si mesmo, ele se representa por meio de palavras, conforme ocorre no primeiro parágrafo da Confessio, que podemos ler abaixo:


    Ego Patricius peccator rusticissimus et minimus omnium fidelium et contemptibilissimus apud plurimos patrem habui Calpornium diaconum filium quendam Potiti presbyteri, qui fui uico † bannauem taberniae †: uillulam enim prope habuit, ubi ego capturam dedi cum tot milia hominum.

    “Eu, Patrício, um pecador, o mais rústico e o menor entre todos os fiéis, profundamente desprezível para muitos, tive por pai o diácono Calpurnius, filho de um certo, Potitus, falecido, um presbítero que foi morador de um vilarejo chamado Bannavem Taberniae; ele tinha uma pequena casa de campo bem próxima, onde eu fui capturado junto com milhares de pessoas.” (Confessio, 1)

    Patrício era bretão. Não podemos nos esquecer, então, que ele era um cidadão romano. Calpurnius e Potitus eram nobres, Patrício soube muito bem invocar suas origens e retirar vantagem disso na construção de sua argumentação quando necessário. Isto é uma estratégia retórica que faz parte do meio escolhido por ele para responder aos diversos questionamentos que lhe foram feitos e se justificar perante as acusações. É esta maneira de falar de si mesmo, de se intitular “o mais rústico e o menor entre todos”, característica predominante em todo o documento, que foi enfatizada para a construção da imagem do Patrício ignorante e deficitário em retórica. Suas palavras foram compreendidas ao pé da letra. Há autores, por exemplo, que tentam, a partir disso, explicar o porquê dele se referir de maneira tão depreciativa a sua própria pessoa. Para isso, apresentam a hipótese de que ele assim o faz, possivelmente por causa de um trauma oriundo da escravidão (O'Mathúna, 1992: 10). Interpretação que não contempla toda a riqueza e pluralidade de detalhes do documento.
    Há outras dificuldades de interpretação relacionadas ao primeiro versículo da Confessio: Por que ele escreve no plural? Como ele poderia saber qualquer coisa acerca das milhares de pessoas raptadas com ele, tal como nos diz nos versos seguintes do documento? Ele as conhecia? Eram cristãos? Eram pagãos? Eram trabalhadores das terras de seu pai? No século V, estes ataques de piratas e saqueadores eram bastante comuns, tanto do lado irlandês quanto do lado bretão. As pessoas que com frequência caíam nestas emboscadas de piratas eram as que viviam nos campos e não nestas cidades fortificadas. Podemos imaginar que a maioria delas ainda era pagã, mas não temos como saber com certeza qual era a fé que proferiam. Mais que investigar as singularidades destes detalhes, coisa que a historiografia irlandesa já fez em demasia (Santos, 2012a), o que desejamos enfatizar aqui é a idéia que Patrício pretende passar aos que leriam a Confessio: a de que ele não foi raptado sozinho, mas sim com milhares de pessoas e que, de uma forma ou de outra, Deus não estava fazendo injustiça alguma, elas é que mereciam esta sorte e Patrício era somente mais um miserável pecador entre elas. Este tipo de uso dos números é muito comum em textos antigos e medievais, não se trata do objetivo de demonstrar matematicamente quantas pessoas estavam presentes, mas de enfatizar a grandeza do evento, atribuindo números altos para criar um significado capaz de impressionar o leitor ou ouvinte.
    Após caracterizar a Irlanda como um lugar distante, de povos estrangeiros, e de convencer seus leitores de que foi parar lá porque foi sequestrado, segundo merecimento, por não estar em acordo com os caminhos do Senhor, Patrício representa a Irlanda como o lugar de sua conversão.


    Et ibi Dominus aperuit sensum cordis mei incredulitatis, ut uel sero rememorarem delicta mea et ut conuerterem toto corde ad Dominum Deum meum, qui respexit humilitatem meam et misertus est | adolescentiae et ignorantiae meae.

    “E lá o Senhor abriu o entendimento de incredulidade do meu coração, a fim de que, mesmo muito tarde, me recordasse dos meus pecados e me convertesse de todo coração ao Senhor meu Deus, que considerou a minha insignificância e teve misericórdia da minha mocidade e ignorância.” (Confessio, 2)

    Patrício viveu seus primeiros 16 anos na Bretanha, e provavelmente foi lá que recebeu sua educação básica, aprendeu sobre as doutrinas fundamentais do Cristianismo de sua época e região, uma vez que era filho de um diácono e neto de um presbítero, que certamente o educaram sob estes princípios, vinculados com a cidadania romana. No entanto, pelo menos no discurso criado por Patrício, apesar de todo este ensinamento, ele ainda vivia de uma maneira inadequada aos olhos Deus, como ele mesmo disse: “e me convertesse”. Isto foi algo que aconteceu somente em um momento posterior. Não foi na Britânia que Patrício diz ter se convertido, tal acontecimento ocorreu na Irlanda “e lá o Senhor abriu o entendimento do meu coração”. Desde o início do documento, então, ele já pretende demonstrar seu vínculo com o lugar que escolheu para passar o resto de sua vida e, pouco a pouco, vai construindo uma argumentação coerente que possa explicar esta ligação. Assim, a Irlanda aparece na carta de Patrício como o lugar de sua conversão, sem dúvida, uma forte justificativa para ele ter ido para lá.
    No início do terceiro versículo, Patrício começa a apresentar de forma mais detalhada os seus motivos para escrever a Confessio e, ao mesmo tempo, ele também já começa a elaborar a sua justificativa, sua defesa. Vamos ver como ele descreve isto:


    Vnde autem tacere non possum, neque expedit quidem, tanta beneficia et tantam gratiam quam mihi Dominus praestare dignatus est in terra captiuitatis meae; quia haec est retributio nostra, ut post correptionem uel agnitionem Dei exaltare et confiteri mirabilia eius coram omni natione quae est sub omni caelo.

    “Por esta razão não posso me calar, nem seria apropriado, diante de tantas dádivas e graças que o Senhor se dignou a me conceder na terra do meu cativeiro; porquanto esta é nossa maneira de retribuir para, depois da correção ou do reconhecimento de Deus, exaltar e confessar suas maravilhas diante de todas as nações que estão debaixo do céu.” (Confessio, 3)

    A intenção de Patrício é demonstrar que recebeu muita coisa de Deus na Irlanda, terra de seu cativeiro. Por causa destes favores ele tem que retribuir, como se fosse um pagamento a Deus por estes benefícios que ele diz ter recebido durante sua jornada, por isso a necessidade de glorificar a Deus, exaltando-o e também confessando suas maravilhas. Esta também é uma forma de dizer que estava na Irlanda trabalhando e que Deus estava ao seu lado. É uma introdução à defesa de sua missão, antes de elaborar de forma mais detalhada sua argumentação e ir direto ao ponto da questão financeira, conforme vemos mais adiante.
    Patrício está preocupado o tempo todo com as pessoas para quem escreveu sua Confessio e pretende se certificar de que elas acreditem que ele está falando a verdade. Isto pode ser percebido claramente no sétimo e oitavo trechos do documento:


    Non ignoro testimonium Domini mei, qui in psalmo testatur: Perdes eos qui loquuntur mendacium. Et iterum inquit: Os quod mentitur occidit animam. Et idem Dominus in euangelio inquit: | Verbum otiosum quod locuti fuerint homines reddent pro eo rationem in die iudicii (Confessio, 7); “Vnde autem uehementer debueram cum timore et tremore metuere hanc sententiam in die illa ubi nemo se poterit subtrahere uel abscondere, sed omnes omnino reddituri sumus rationem etiam minimorum peccatorum ante tribunal Domini Christi”. (Confessio, 8)

    “Eu não ignoro o testemunho do meu Senhor, que diz no Salmo: ‘Tu destruirás os que proferem mentira’; e novamente: A boca mentirosa traz a morte para a alma. E igualmente o Senhor disse no Evangelho: No dia do Juízo os homens prestarão contas de cada palavra vã que disseram. Deste modo é que vigorosamente eu devia recear, com temor e tremor, a sentença daquele dia em que ninguém poderá escapar e nem se esconder, mas todos, sem exceção alguma, prestarão contas até dos menores pecados diante o tribunal do Senhor Cristo”. [12] (Confessio, 7 e 8)

    Ou seja, Patrício cita três trechos das escrituras que abordam o tema da mentira e do repúdio de Deus a este ato. Assim, além de usar o texto bíblico para corroborar com a sua argumentação, conferindo autoridade ao que ele está dizendo, ele demonstra que entende que isso é um pecado mortal para Deus.
    Depois de tudo que Patrício escreve sobre si mesmo nestes primeiros versículos, referindo-se a sua própria pessoa sempre por meio de adjetivos que aparentemente o desqualificam: “o mais rústico pecador”; “menor entre todos os crentes”; “desprezível para muitos”; “imperfeito em muitas coisas”; “incrédulo até ir para Irlanda” e “insignificante, apenas um jovem ignorante”, ele sintetiza tudo o que foi dito de modo a enfatizar sua suposta falta de preparo para escrever. Trata-se do versículo nove de sua Confessio, que foi o maior responsável pelos debates a respeito desta suposta rusticidade, ignorância e ausência de domínio retórico de Patrício. Vejamos o documento:


    Quapropter olim cogitaui scribere, sede et usque nunc haesitaui; timui enim ne incederem in linguam hominum, quia non legi sicut et ceteri, qui optime itaque iura et sacras litteras utraque pari modo combiberunt et sermones illorum ex infantia nunquam mutarunt, sed magis ad perfectum semper addiderunt. Nam sermo et loquela nostra translata est in linguam alienam, sicut facile potest probari ex saliua scripturae meae qualiter sum ego in sermonibus | instructus atque eruditus, quia, inquit, sapiens per linguam dinoscetur et sensus et scientia et doctrina ueritatis.

    “Por esta razão tenho pensado em escrever, mas até agora tenho hesitado; na verdade temi me expor na língua dos homens, porque não me instrui da mesma maneira que os outros, que têm assimilado bem tanto a lei como as Sagradas Escrituras e nunca mudaram o idioma desde a infância, mas ao contrário, sempre o tem aperfeiçoado. Enquanto a nossa linguagem e idioma foram traduzidos para uma língua estrangeira, assim facilmente se pode provar a partir de uma mostra dos meus escritos a minha qualidade em retórica, a minha instrução e também erudição, porque, está escrito: ‘A sabedoria será reconhecida pelo modo de falar, no entendimento, e no conhecimento da doutrina da verdade’.” (Confessio, 9)

    Este é o trecho no qual se basearam as análises que apresentam um Patrício ignorante, com um latim de qualidade ruim e que não domina as técnicas da retórica e da argumentação, tendo até mesmo problemas simples de comunicação, pelo fato de se expressar em um idioma que não é o seu. Esta interpretação que a maior parte dos autores fez é possível porque Patrício diz que hesitou escrever por não se considerar capaz e apto como os outros, pelo fato de não ter tido o mesmo tempo de estudo, ter tido seu idioma mudado e que isto poderia ser facilmente observado em seus escritos. No versículo 10, ele continua pedindo desculpas por não ser “eloquente” e sente vergonha por expor sua ignorância e por não conseguir expressar como o espírito é ávido por fazer e tanto a alma quanto o entendimento se mostram dispostos. [13] Esta argumentação prossegue no 13, Patrício continua se representando como estúpido e ignorante e refere-se aos seus acusadores chamando-os de domini cati rethorici. [14] Todavia, Patrício parece estar apenas estabelecendo um jogo retórico com aqueles que o acusavam. Além dele saber muito bem o que estava dizendo e apresentando cada argumento em seu contexto apropriado, ele também pretendia dizer que sua autoridade era conferida por Deus.
    Howllet também interpretou da mesma maneira esta questão. Ele ainda acrescenta que, os escritores medievais (e aqui o autor está, sem dúvida, pensando em Muirchú Mocuu Machteni, um hagiógrafo de Patrício, que escreveu no século VII) entenderam melhor do que os modernos a prosa de Patrício. Isto se deu por estarem inseridos na mesma tradição hiberno-latina de retórica. Assim, eles reconheceram de imediato o que Patrício queria dizer. Algo que era uma provocação e não uma auto-depreciação. Todo este discurso da “humildade” que Patrício elabora para se representar teria o objetivo de se afirmar, sua idéia era caracterizar toda a fonte de sua autoridade como oriunda diretamente de Deus e não do fato de ser um bispo (Howlett, 1994: 120-121).
    Quando analisamos a Confessio como um sistema, investigando todo o texto, e não recortando frases isoladas, podemos chegar à mesma conclusão. Ou seja, confirmar que Patrício pretende deixar explícito que sua autoridade é divina. Ele diz, por exemplo, que ao apascentar ovelhas e porcos, orando nas florestas e nas montanhas da Irlanda, recebeu uma mensagem divina por meio de uma voz que lhe falou durante o sono. Trata-se de uma instrução relacionada com sua primeira fuga da Irlanda, vamos ver como Patrício descreve este momento:


    Et ibi scilicet quadam nocte in somno audiui uocem dicentem mihi: <>, et iterum post paululum tempus audiui responsum dicentem mihi: | <> - et non erat prope, sed forte habebat ducenta milia passus et ibi numquam fueram nec ibi notum quemquam de hominibus habebam - et deinde postmodum couersus sum in fugam et intermisi hominem cum quo fueram sex annis et ueni in uirtute Dei, qui uiam meam ad bonum dirigebat et mihil metuebam donec perueni ad nauem illam.

    “E lá (naturalmente) uma noite no meu sono eu ouvi uma voz que me dizia: ‘Fazes bem em jejuar, pois brevemente partirás para a tua pátria’ e novamente muito pouco tempo depois ouvi uma voz que me dizia: ‘Eis que teu barco está pronto’ e não estava em um lugar perto não, pelo contrário, estava a duzentas milhas de distância onde eu nunca estivera ou conhecera alguém. Então pouco tempo depois eu fugi e abandonei o homem com quem estivera durante seis anos e avancei na virtude de Deus, que dirigiu meu caminho para o bem e eu nada temi até que alcancei aquele barco.” (Confessio, 17)

    Ou seja, primeiro Patrício ouve uma voz o alertando que brevemente iria para sua pátria, a Bretanha. Logo a seguir, lhe é dito que seu navio estava pronto. Mesmo sendo um lugar distante, onde não havia uma pessoa conhecida e no qual Patrício nunca havia estado antes, ele conseguiu fugir, deixando para trás sua vida de escravo pastor de ovelhas. Acreditamos que, ao descrever as dificuldades de sua fuga, Patrício deseja enfatizar que Deus o estava protegendo, mostrando-lhe as direções. Patrício nos apresenta não somente esta mensagem, dividida em duas etapas, dois sonhos noturnos, o primeiro pedindo que se preparasse e o segundo lhe apontando o caminho, mas também o cumprimento da mesma, a realização do que lhe fora prometido pela voz divina, pois logo a seguir, Patrício encontra o navio, que estava de partida, e diz ao capitão que deveria navegar com eles. É o que nos descreve no próximo versículo de sua carta:


    Et illa die qua perueni profecta est nauis de loco suo, et locutus sum ut haberem unde nauigare cum illis et gubernator displicuit illi et acriter cum indignatione respondit: <>, et cum haec audiissem separaui me ab illis ut uenirem ad tegoriolum ubi hospitabam, et in itinere coepi orare et antequam orationem consummarem audiui unum ex illis et fortiter exclamabat post me: <>, et statim ad illos reuersus sum, | et coeperunt mihi dicere: << Veni, quia ex fide recipimus te; fac nobiscum amicitiam quo modo uolueris>>- et in illa die itaque reppuli sugere mammellas eorum propter timorem Dei, sed uerumtamem ab illis speraui uenire in fidem Iesu Christi, quia gentes erant - et ob hoc obtinui cum illis et protinus nauigauimus.

    “E naquele mesmo dia em que cheguei o barco estava de partida, e eu disse que tinha condições de navegar com eles. O capitão se desagradou e irado respondeu rispidamente: ‘de modo algum tente ir conosco’ tendo ouvido isto me separei deles e me dirigi a uma pequena cabana onde me hospedava, e no caminho comecei a orar e antes que terminasse a oração ouvi um deles gritando bem alto atrás de mim: ‘venha rapidamente, porque aqueles homens estão te chamando’ e imediatamente voltei pra junto deles, que começaram a me dizer: ‘venha, porque de boa fé te recebemos, faça conosco amizade do modo que desejares’ e naquele dia então me recusei a sugar-lhes as mamas pelo temor de Deus, mas, entretanto esperava que eles viessem a ter fé em Jesus Cristo, porque eram gentios. Por isso continuei com eles e sem demora nos colocamos ao mar.” (Confessio, 18)

    Como podemos perceber, em primeira instância seu pedido foi recusado, mas aí ele nos conta que foi para uma cabana e orou a Deus e, antes que terminasse a oração, Patrício ouviu um deles o chamando e aceitando que partisse junto com eles, e assim se colocaram ao mar. A seguir, Patrício relata o que seria o primeiro milagre feito por seu intermédio:


    Et post triduum terram cepimus et uiginti octo dies per desertum iter fecimus et cibus defuit illis et fames inualuit super eos, et alio die coepit gubernator mihi dicere: <> Ego enim confidenter dixi illis: <>, et aduuante Deo ita factum est: ecce grex porcorum in uia ante oculos nostros apparuit, et multos ex illis interfecerunt et ibi duas noctes manserunt et bene refecti et carnes eorum releuati sunt, quia multi ex illis defecerunt et secus uiam semiuiui redicti sunt, et post hoc summas gratias egerunt Deo et ego honorificatus sum sub oculis eorum, et ex hac die cibum habundanter habuerunt; etiam mel siluestre inuenerunt et mihi partem obtulerunt et unus ex illis dixit: Immolaticium est; Deo gratias, exinde nihil gustaui.

    “E depois de três dias alcançamos a terra e caminhamos vinte e oito dias através de uma região desértica até que a comida acabou e a fome nos alcançou. No outro dia o capitão começou a me dizer: ‘Por que acontece isso Cristão? Tu dizes que teu Deus é grande e onipotente, porque razão tu não podes orar por nós? Pois podemos morrer de fome; é provável que jamais vejamos outro ser humano’. Eu então lhes disse confiantemente: convertam-se pela fé de todo o coração ao Senhor Deus meu, pois nada é impossível para ele e hoje mesmo ele mandará alimento para vós em vosso caminho até que se saciem, pois em toda a parte ele traz abundância. E com a graça de Deus isto realmente aconteceu: eis que uma vara de porcos apareceu no caminho diante dos nossos olhos, e mataram muitos dentre os porcos. E neste lugar permaneceram por duas noites e fartaram-se daquelas carnes dos porcos e foram revigorados da fome, porque muitos deles tinha desfalecido e tinham sido abandonados semimortos à beira do caminho. Depois disto renderam muitas graças a Deus e eu tornei-me honrado aos seus olhos, e a partir daquele dia tiveram alimento abundantemente, descobriram mel silvestre e ofereceram-me uma parte e um deles disse: é um sacrifício; Graças a Deus, deste nada provei.” (Confessio, 19)

    Depois de algum tempo caminhando, o capitão pede uma ajuda em espécie de desafio, interrogando Patrício sobre a situação que estavam enfrentando. É quando Patrício faz seu primeiro milagre, ele ora e uma vara de porcos aparece no caminho deles de forma que puderam saciar a fome, conforme lemos acima. O importante nesta passagem, que diferirá dos documentos posteriores, é que Patrício é um intermediador do milagre, ele é somente o veículo, quem o faz mesmo é Deus. Nas representações de outros documentos, a atuação de Patrício é mais intensa e pessoal, apesar das menções à divindade, é ele mesmo que faz todas as movimentações para que o milagre aconteça. Aqui não, Patrício faz questão de enfatizar que era Deus agindo por meio dele e que o resultado desta ação foi que os pagãos reconheceram seu Deus e renderam extremas graças a ele.
    Depois deste momento, Patrício, no versículo 21 da Confessio, diz que foi capturado uma segunda vez. Ele não considera esta parte importante o suficiente para ser contada em detalhes. No entanto, ele relata que foi pego novamente e consegue escapar com a ajuda de Deus, que lhe fala por meio de mais uma mensagem. A estrutura é a mesma: primeiro uma voz divina lhe fala o tempo de sua permanência entre aqueles homens e depois ocorre a confirmação do que fora antes dito: “...nocte illa sexagesima liberauit me Dominus de manibus eorum...” [“e na sexagésima noite o meu Senhor me libertou das mãos deles”] (Confessio, 21). Após fugir, Patrício vai para a Bretanha, seu lar, casa de seus pais. Quando estava lá, nos descreve outra visão, talvez uma das mais importantes que teve, pois é por meio dela que ele justifica sua ida à Irlanda:


    Et iterum post paucos annos in Brittanniis eram cum parentibus meis, qui me ut filium susceperunt et ex fide rogauerunt me ut uel modo ego post tantas tribulationes quas ego pertuli nusquam ab illis discederem, et ibi scilicet uidi in uisu noctis uirum uenientem quasi de Hiberione, cui nomem Uictoricus, cum epistolis innumerabilibus, | et dedit mihi unam ex his et legi pricipium epistolae continentem <>, et cum recitabam principium epistolae putabam ipso momento audire uocem ipsorum qui erant iuxta siluam Vocluti quae est prope mare occidentale, et sic exclamauerunt quasi ex unu ore: <>, et ualde compunctus sum corde et amplius non potui legere et sic expertus sum. Deo gratias, quia post plurimos annos praestitit illis Dominus secundum clamorem ilorum.

    “E depois de uns poucos anos eu estava de novo na Britânia com meus pais, que me acolheram como um filho e rogaram-me intensamente que eu, após ter passado por tantas tribulações que nunca partisse para longe deles; e neste lugar naturalmente vi numa visão noturna um homem vindo como que da Irlanda, cujo nome era Uictoricus, com inumeráveis cartas, e deu para mim uma delas e logo no princípio da carta estava escrito: ‘A voz dos irlandeses’ e enquanto eu recitava o princípio da carta, pareceu-me naquele momento ouvir as vozes daqueles que estavam perto da floresta de Vocluti que fica perto do mar ocidental, e ainda exclamavam como se fosse uma só voz: ‘Nós te rogamos, santo jovem, venha e caminhe novamente entre nós’ e eu estava tão profundamente tocado no meu coração que nem pude ler mais e assim despertei. Graças a Deus, porque depois de muitos anos, o Senhor atendeu à súplica deles.” (Confessio, 23)

    Patrício pretende demonstrar que seu chamado era especial, pois vinha diretamente de Deus, que lhe falava por meio de mensagens particulares dirigidas à sua pessoa. Por este motivo, ele elenca vários fenômenos oníricos envolvendo audição de vozes, mensagens recebidas, aparições e visões que ele acredita serem capazes de sustentar que ele tinha um relacionamento íntimo com Deus. Sua intenção é caracterizar sua estreita relação com a divindade e, portanto, justificar todas as suas ações, enquanto na Irlanda, como resposta ao chamado divino. O próprio Deus o chamou para divulgar o cristianismo entre os irlandeses. Isto pode ser percebido também em outros trechos de sua carta, como, por exemplo, na leitura dos versículos 24, 25 e 29. O que Patrício pretende deixar claro é que ele próprio, pelo menos inicialmente, não tinha interesse em ir para Irlanda, os confins do mundo, terra de bárbaros pagãos, para enfrentar fome, frio, perseguições e problemas diversos, mas não poderia resistir ao chamado de Deus, representado pela aparição de Uictoricus.
    Ana Teresa Marques Gonçalves afirma que para os povos da Antiguidade, os sonhos tinham grande importância, pois eles eram vistos como comunicações entre os homens e os deuses. Uma mensagem, um sonho, uma visão, ou uma voz podia caracterizar uma pista, uma indicação do desejo divino, algo que na Antiguidade tinha o poder de convencer, pois trata-se da manifestação do transcendental (Gonçalves, 2003: 27-48). Segundo Dorothy Africa, os sonhos e visões são importantes nas obras hagiográficas e este fenômeno tem sido comentado por inúmeros autores. No caso de Patrício, em particular, a percepção de um sonho como um contato com a divindade possui profundas raízes na cultura irlandesa do século V. A autora afirma que os sonhos são importantes e têm um elevado status, e, com relação aos irlandeses, eles já faziam parte dos contos tradicionais deste povo. Portanto, as descrições feitas por Patrício contendo sonhos e visões [15] podem ter atraído imediatamente a atenção dos irlandeses e facilitado a aceitação de seus argumentos. Patrício também faz menções a vários trechos bíblicos para corroborar o que ele está narrando em sua obra, demonstrando assim que o sonho era importante tanto no contexto pagão irlandês, quanto no cristão. Dorothy ainda explica que, tardiamente, por volta do século VII, passagens como Bene ieiunas (Confessio, 17), Ecce nauis tua (Confessio, 17) e Duobus mensibus (Confessio, 20) são cuidadosamente preservadas como prova do contato divino entre Patrício e a divindade (Africa, 1987).
    A partir desta representação, Patrício não precisará de nenhuma justificativa a mais para convencer seus leitores acerca da necessidade de ir para Irlanda, pois que imagem pode ser mais forte na Antiguidade do que conversar diretamente com a divindade, receber dela mensagens com direcionamentos específicos, demonstrar a confirmação destes sonhos, visões e mensagens, e ainda corroborar estes chamados com citações bíblicas, como faz Patrício? Como o próprio Patrício ressalta, quem poderia ousar fazer algo contra “a pupila dos olhos de Deus” [16] ?
    A seguir, Patrício cita o exemplo de uma abençoada irlandesa, que ele batizou, tornando-se virgem de Cristo (Confessio, 41). [17] Patrício aqui está mostrando aos receptores de sua Confessio exemplos de suas atuações como missionário na Irlanda. Além dele se justificar por meio de palavras, tanto pelo fato de Deus falar-lhe diretamente em aparições, visões, e sonhos, quanto pelas corroborações com as escrituras, como vimos anteriormente, ele ainda apresenta os resultados práticos de sua jornada missionária, mostrando que ela não foi em vão. Patrício diz que ela se converteu ao cristianismo, tornando-se uma virgem de Cristo, contra a vontade dos pais, provavelmente pagãos e, por isso, teve que enfrentar perseguições e reprovações imerecidas de seus familiares, mas que mesmo assim o número delas aumenta cada vez mais. Ou seja, apesar das dificuldades, com a ajuda de Deus e a intervenção apropriada de Patrício, o Cristianismo estava gerando frutos.
    Depois de apresentar estes resultados de sua atividade como divulgador do Cristianismo na Irlanda, mostrando que sua obra estava prosperando e demonstrar sua abdicação, a dificuldade em ficar longe da família, sofrendo perseguições em um lugar hostil, Patrício encaminha a defesa para a principal acusação que estava sofrendo, vamos ver como ele apresenta seu argumento:
   


    Nam etsi imperitus sum in omnibus tamem conatus sum quippiam seruare me etiam et fratibus Christianis et uirginibus Christi et mulieribus religiosis, quae mihi ultronea munuscula donabant et super altare iactabant ex ornamentis suis et iterum reddebam illis et aduersus me scandalizabantur cur hoc faciebam; sed ego propter spem perennitatis, ut me in omnibus caute propterea conseruarem, ita ut me in aliquo titulo infideli caperent uel ministerium seruitutis meae nec etiam in minimo incredulis locum darem infamare siue detractare.

    “Pois embora eu seja ignorante em todas as coisas, ainda assim me esforcei para me conservar e ainda aos meus irmãos cristãos, as virgens de Cristo e as mulheres religiosas, que me davam espontaneamente alguns pequenos presentes e costumavam jogar ao altar seus adornos. Eu os devolvia e se escandalizavam comigo por causa disso e me perguntavam por que eu agia assim; mas eu, na esperança da eternidade, para me proteger de todas as coisas, de forma que não pudessem lesar-me no meu ministério alegando qualquer desonestidade e que nem mesmo esse mínimo detalhe desse qualquer margem para difamação ou depreciação por parte dos incrédulos.” (Confessio, 49)

    Patrício está tentando demonstrar que de forma alguma aceitava compensações financeiras pelo seu trabalho. Conforme sua narrativa, ele jamais pediu qualquer tipo de ajuda para sua comunidade de fiéis, eram eles que resolviam colaborar. As mulheres religiosas que ele cita costumavam oferecer presentes espontaneamente. Patrício diz que elas jogavam seus adornos ao altar e ele recusava tudo, claro. Ele estava sendo acusado de usar a sua religião para ganhar dinheiro ilicitamente na Irlanda. Por isso, era muito importante se livrar de qualquer indício que possa corroborar com esta idéia, ele precisava acabar com qualquer suspeita desta natureza. Patrício nos conta que quando devolvia os adornos para aquelas mulheres, elas se escandalizavam, parece, então, que se tratava de um costume irlandês, ou pelo menos Patrício deseja passar esta mensagem. Por algum motivo, aquelas pessoas acreditavam que deviam recompensar o missionário por alguma coisa que ele estaria fazendo, esta era a razão dos presentes. De qualquer forma, nem assim Patrício os aceita. Ou seja, se ele não recebe nem aquilo que lhe é jogado ao altar, que lhe é dado, com certeza não aceitaria dinheiro ilícito. O que Patrício cita vai de encontro às palavras dos homens que denegriam sua imagem. Ele não queria ser acusado nem no mínimo detalhe, não queria dar qualquer margem para difamação, depreciação, ou que seus acusadores apontassem qualquer desonestidade em seu ministério. O versículo 50 da Confessio é uma complementação destas idéias:


    Forte autem quando baptizaui tot milia hominum sperauerim ab aliquo illorum uel dimidio scriptulae? Dicite mihi et reddam uobis, aut quando ordinauit ubique Dominus clericos per modicitatem meam et ministerium gratis distribui illis, si poposci ab aliquo | illorum uel pretium uel calciamenti mei, dicite aduersus me et reddam uobis.

    “Por acaso quando batizei tantos milhares de pessoas esperava mesmo nem que fosse metade de qualquer coisa deles? Se assim foi, digam-me e eu vos restituirei. E quando o Senhor ordenou clérigos em todas as partes por intermédio da minha humilde pessoa eu lhes conferi o ministério gratuitamente, se pedi de alguém qualquer recompensa, ou um valor que seja de um par de sapatos, digam-me na minha frente e os restituirei.” (Confessio, 50)

    Patrício começa a fazer perguntas retóricas aos que leriam sua carta. Observemos que novamente ele utiliza um argumento baseado em um número não matemático, mas hiperbólico, querendo dizer que batizou várias pessoas. Não importa quantas pessoas exatamente ele batizou, e sim que foram muitas. O que ele está fazendo é acentuando a importância de seu trabalho e, o principal, de ter feito isso sem esperar nada em troca, atendendo única e exclusivamente ao chamado divino. Patrício faz um desafio aos seus acusadores, se por acaso ele recebeu qualquer coisa da parte dos irlandeses, qualquer tipo de recompensa financeira, mesmo que seja um par de sapatos, digam na frente dele e ele restituirá tudo que lhe fora dado, caso isso seja verdadeiro. No mesmo trecho, Patrício diz também que ordenou clérigos por todas as partes. Assim, ele não somente divulgou o cristianismo entre os bárbaros pagãos irlandeses, como ensinou com cuidado a doutrina cristã, batizou inúmeras pessoas e deu continuidade ao seu trabalho, prosseguiu ensinando estas pessoas até que alguns pudessem se tornar clérigos e, o mais importante, conferiu a eles o ministério gratuitamente. Acreditamos que são exemplos suficientes para que o leitor tenha uma idéia de como Patrício argumentava com clareza, astúcia e de forma bem ordenada, utilizando conhecimentos retóricos em sua Confessio.


Considerações finais

Como vimos, pouco a pouco, Patrício foi construindo uma rede argumentativa que envolveu seus leitores e/ou ouvintes, de modo a deixar-lhes sem palavras e tendo a única reação possível: aceitar sua Confessio e reconhecê-lo como um homem de Deus, íntegro e honesto, que estava falando a verdade, justificando seu ministério tanto com palavras quanto com exemplos. Ou seja, Patrício conseguiu elaborar uma imagem positiva e eficaz, adequada para uma defesa de si mesmo, uma apologia pro vita sua.
    Se nos contentássemos em ler a Confessio ao pé da letra e entender, por exemplo, que quando Patrício diz que ele era “o mais rústico”, ele pretendia de fato apenas fazer referência aos seus anos vivendo em uma pequena vila na Bretanha ou sendo um escravo pastor de ovelhas na Irlanda, ou, mais ainda, que, nas partes nas quais ele faz referência ao seu “pouco estudo”, ele pretendia mesmo enfatizar que não teve a oportunidade de se dedicar às letras como seus arguidores, teríamos sérias dificuldades para explicar os trechos complexos do documento, pois como um homem de um latim “bárbaro” e “desprovido de retórica”, poderia atingir nestes momentos tamanha capacidade de elaboração? Assim, lendo de forma literal a Confessio, tanto as explicações de Christine Mohrmann, sobre a riqueza de possibilidades do latim de Patrício, quanto as Teses de Howlett e De Paor, acerca da complexidade da estrutura narrativa elaborada por Patrício não fariam sentido. Ao contrário disso, preferimos acreditar que Patrício estava mostrando que sua inspiração era divina e não humana, além de apresentar profundo conhecimento tanto das escrituras quanto da tradição cristã. Ele não era um ignorante em retórica, sabia muito bem como se defender diante de seus críticos e podemos perceber isso tanto pela análise da estrutura e da gramática do documento quanto por meio de um estudo de seus argumentos, que foi o que exploramos neste artigo.


Bibliografía

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RECIBIDO: 22/07/2012 | ACEPTADO: 01/02/2013


 


[1] Agradeço ao Professor David Howlett, Oxford, por suas sugestões e o constante diálogo sobre alguns problemas concernentes à temática da retórica hiberno-latina. Inúmeras referências como estas que mencionamos foram sistematizadas por ele e reunidas em sua obra The Book of Letters of Saint Patrick the Bishop (Howlett, 1994).

[2] Thomas Finan, por exemplo, apresentou hipóteses desta natureza em 2002, em uma conferência intitulada Echoes of Augustine’s Confessions in St Patrick’s Letter ministrada no Saint Patrick’s College, Maynooth, Kildare, Irlanda.

[3] Publicado inicialmente em Copenhague, na Dinamarca nos números 11 (1950) e 12 (1951) do periódico Classica et Mediaevalia. Trata-se da edição mais elaborada já realizada das duas Cartas de Patrício, Confessio e da Epistola, baseada nos oito manuscritos existentes. É a obra canônica para o estudioso de Patriciologia. O texto foi reimpresso em dois volumes pela Irish Manuscriptis Comission com o título de Libri Epistolarum Sancti Patricii Episcopi em Dublin no ano de 1952. A versão consultada é a mais atual, publicada em 1993 pela Royal Irish Academy.

[4] Abreviação para Trinity College, Dublin.

[5] Quando Bieler escreveu este texto em 1950, ele relatou que estavam faltando duas partes no documento (uma entre a folha 51 e 52 e outra entre a 52 e 53).

[6] 19ª, 20ª e 21ª palavras do versículo 27 da Confessio.

[7] O verbo obiecerunt no versículo 26, o pronome me no 29, e o advérbio crebre no 35 são alguns exemplos das mudanças feitas por Howlett.

[8] Confessio 1: Ego Patricius peccator rusticissimus et minimus omnium fidelium.

[9] Inserimos números entre parênteses ao lado de algumas palavras em sentenças específicas para facilitar ao leitor não acostumado com este tipo de sistematização a localização do que está sendo mencionado, de modo que possa acompanhar o raciocínio apresentado com mais rapidez. Na obra de Howlett não há estas demarcações.

[10] No documento, a linha termina nesta palavra.

[11] A obra de Howlett é a maior referência historiográfica para os interessados nestas dicussões acerca dos momentos específicos da obra de Patrício em que ele utiliza algumas técnicas da retórica latina na construção de seus argumentos. Além desta arquitetura aritmética de composição, na qual há uma proporção numérica entre a quantidade de palavras, sílabas, frases (e até sons), Howlett mostra que Patrício também se utiliza de: organização das sentenças em modelos e formas rítmicas; a elaboração de estruturas quiásticas; paralelismos; criação de vínculos por aliteração e assonância e outros elementos.

[12] Há várias outras passagens da Confessio em que Patrício faz questão de ressaltar que está falando a verdade, por exemplo: 10; 18; 31; 44; 48 e 54.

[13] “Vnde ergo hodie erubesco et uehementer pertimeo denudare imperitiam meam, quia desertis breuitate sermone explicare nequeo, sicut enim spiritus gestit et animus, et sensus monstrat adfectus (Confessio: 10).

[14] “Vnde autem ammiramini itaque magni et pusilli qui timetis Deum et uos domini cati rethorici audite ergo et scrutamini. Quis me stultum excitauit de medio eorum qui uidentur esse sapientes et legis periti et potentes in sermone et in omni re, et me quidem, detestabilis huius mundi, prae ceteris inspirauit si talis essem” (Confessio:13).

[15] Patrício descreve oito mensagens de caráter onírico em sua Confessio: algumas sobre sua fuga da Irlanda, três encorajando-o a voltar para lá e divulgar o cristianismo entre os irlandeses, e a última menciona um momento específico de sua missão na Irlanda.

[16] “...Qui uos tangit quasi qui tangit pupillam oculi mei...” (Confessio, 28).

[17] “...Una benedicta Scotta genetiua nobilis pulchrerrima adulta erat, quam ego baptizaui...”.